top of page
space-911785_960_720.jpg

O Feminismo Genuíno e Literário de Lygia Fagundes Telles

há 11 minutos
3 min de leitura

Lygia Fagundes Telles morreu em 2022, aos 103 anos. Se a Grande da Dama da Literatura se foi, seu legado inestimável ficou. Vive. Floresce. Desabrocha e floresce como uma rosa, assim como todas as mulheres com sede de uma genuína emancipação. Mulheres essas que defendem igualdade real e acabam provando também superioridade real. Igualdade nos direitos, mas superioridade nos feitos.

Eu mesmo me considero um feminista individualista. Defendo somente, por princípio, a igualdade dos direitos, e apenas, por consequência, dos feitos. Se homens e mulheres precisam começar da mesma linha de largada, alcançar a linha de chegada se torna meramente uma combinação das escolhas e habilidades de cada um. E, nesta empreitada, as mulheres, na maioria das vezes, saem anos luz à frente, com direito ainda a pausas prolongadas sem comprometer a primazia na linha de chegada, conforme demonstrei no meu livro Reflexões Acadêmicas Preliminares.

Lygia Fagundes Telles é uma prova do fenômeno das mulheres escritoras, e de um feminismo singular e implacável na literatura. Em sua prosa, por meio dos vários personagens, ela nos chama à reflexão. Apesar de priorizar a criação personagens femininas, em suas obras, a imensa diversidade de personagens masculinos é da mesma força. Há exemplos tanto positivos quanto negativos, dos dois lados.

No conto Apenas Um Saxofone, temos uma mulher numa pensão que trai um cara que toca uma triste melodia com um saxofone, com todos os demais pensionistas. Todo mundo sabe, ele sabe, mas não a abandona porque tem paixão demais por ela. 

No conto Venha Ver O Por do Sol, temos a história de um homem que arma para colocar a ex-namorada numa cilada.

No conto Antes do Baile Verde, que dá título ao livro homônimo, premiado na França, temos a história de uma empregada sensata e a filha da patroa extremamente egoísta, que trata os últimos sopros de vida do pai acamado com uma frieza assustadora.

No romance Ciranda de Pedra — de acordo com Antônio Cândido, marco de sua maturidade literária —, temos também mais uma vez exemplos contrastantes nos dois lados. Virginia, a protagonista, teve uma infância muito triste e marcada pela solidão. A mãe adúltera tem uma doença grave e é cuidada pelo “tio Daniel”, que mais tarde descobre ser seu pai biológico. Apesar do erro, ele se revela um homem muito gentil. O pai não biológico de Virgínia, ex-marido da mãe, não é uma má pessoa. Apresenta qualidades e defeitos, o que torna profundamente rico de tão humano. Ele tenta fazer o melhor e acha que está fazendo o melhor possível, embora nem sempre acerte. De todos os personagens do livro, talvez a que mais nos desperta antipatia é uma das irmãs postiças de Virgínia, que se revela uma mulher extremamente hipócrita e com um falso moralismo de nos enojar. Rompeu definitivamente com a mãe, sem remorso, por conta da traição, até a sua morte, e acaba ela mesma traindo o marido, ao se casar. Tenta se fazer de vítima e ainda busca justificativas esfarrapadas.

Nas narrativas épicas e literárias tradicionais masculinas, os heróis eram todos homens, mas os antagonistas também eram todos homens. O feminismo individualista, iniciado por Mary Wollstonecraft, teve a honra de provar, com sucesso, que o heroísmo tem rosto tanto de homem quanto de mulher, não descartando ainda a vilania. O feminismo de gênero, de matriz coletivista, não contente, destituiu todos os heróis masculinos e os trocou por mulheres. Mas os antagonistas continuaram sendo apenas homens.

Embora Lygia Fagundes Telles se definisse como alinhada ao socialismo, e isso não vou contrapor, é evidente que, no âmbito da literatura, a complexidade de seus personagens, somada à maestria narrativa de uma exímia ficcionista, deu conta de abarcar todas as individualidades possíveis, tanto de homens quanto de mulheres.

 

Comentários


bottom of page