A Participação das Mulheres No Nazismo
- Alexandre Braga

- há 7 horas
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É bastante comum a noção de que a violência feminina é, necessariamente, menos nociva ou não merece devida atenção, sobretudo, se comparada à masculina. Os defensores dessa crença costumam apelar para a taxa muito superior da criminalidade masculina. As razões são legítimas. A violência direta é destrutiva, além de ser o tipo de violência mais visível, pressupõe, para qualificá-la como ilícita, a identificação do culpado real. Sem desmerecer a importância de se combatê-la, porém, não é a única forma de violência possível, tampouco, necessariamente, a mais danosa. Tudo por um detalhe crucial: autoria de fato dos crimes sempre abrange o seu causador direto, mas sempre omite todo ou a maior parte dos causadores indiretos.
Seria razoável dizer que os brancos são, necessariamente, menos violentos do que os negros, só por que eles cometem muito menos crimes, em média? A lei racista da escravidão já não seria por si só o exemplo perfeito da violência atroz e sistemática dos brancos? Aí eu pergunto: essa violência é direta? Em quase todos os casos, não. É indireta. A porcentagem dos brancos que comete essa violência direta é, na verdade, insignificante se comparada ao total da população branca. Da mesma forma, eu ainda pergunto: teriam sido as mulheres nazistas bem menos violentas do que os homens nazistas por que o exército, a polícia e os soldados alemães eram todos homens?
Um dado interessante é o de que, quando o Hitler foi, pela primeira vez, eleito democraticamente, 48% dos votos recebidos eram de mulheres. Seriam essas mulheres necessariamente menos ou pouco violentas? Não são responsáveis em nada pelo holocausto?
Mais importante: havia muitas mulheres participando ativamente do Projeto Nazista. Eram minoria em comparação com os homens? Sim. De fato, como já demonstrei no meu livro Reflexões Acadêmicas Preliminares, de um modo geral, as mulheres são mesmo, de forma significa, menos violentas do que os homens, não só por participarem menos da política, pois isto é apenas o reflexo de uma questão muito mais abrangente que envolve biologia e cultura. Porém, é certo afirmar que boa parte das causas da menor violência feminina não é explicada pela notável e predominante superioridade moral das mulheres e pela maior força física média dos homens. Há ainda uma outra influência tão importante o quanto: a menor predisposição ao risco.
Cometer crimes, de qualquer uma das formas, por si só já é um risco. E qual das categorias de violência, expostas anteriormente, oferece o menor risco?
Mulheres podem ser menos violentas do que os homens, mas também costumam dispor de métodos diferentes ao cometer crimes. Certamente, contribuíram para o desastre nazista tanto quanto os homens. O próprio Hitler via necessidade e tratava a importância de ter mulheres aliadas como uma de suas prioridades.
Os discursos públicos de Hitler, gravados e filmados e repetidamente transcritos consistem em apenas um fragmento de evidência do apoio fervoroso de mulheres à Hitler, seja pela ampla presença de mulheres nesses eventos ou pelo conteúdo que havia nos discursos. Mas há vários outros fatos que deixam tudo ainda mais evidente. Um deles envolvendo a companheira de longa data de Hitler: Eva Braun. Os dois jamais se apresentaram em público como casal. O motivo tem tudo a ver com a relação de Hitler com o eleitorado feminino. Ele chegou a declarar que o seu envolvimento com Eva deveria ficar fora dos bastidores porque poderia afetar o apoio de mulheres a ele. E estava absolutamente certo nisso. A propaganda oficial do Partido Nazista à figura de Hitler apostava na imagem de um homem viril e casto, por uma questão estratégica até nos mínimos detalhes. Boa parte do apoio inflamado de mulheres a Hitler era explicado ao fato de que ele era visto com o que hoje chamamos de "crush".
Para corroborar com tudo isso, temos como provas um vasto material de cartas apaixonadas de mulheres destinadas e endereçadas a Hitler. Embora a ampla maioria fosse, nem todas eram anônimas. Havia também mulheres bastante influentes na sociedade alemã e na difusão da cultura nazista.
Feministas — no geral — mentem ou omitem até quando dizem que mulheres alemãs estavam excluídas da política de seu país. Até porque a chefe de todos os movimentos em prol da criação do ideal da mulher ariana — incluindo também as organizações da Juventude Feminina Hitlerista — era uma mulher chamada Gertrud Bäumer. Ela própria era membro da política alemã. Feministas enfatizam que não havia nenhum ministério dedicado às mulheres ou a resolver as questões femininas na Alemanha Nazista e colocam como prova de que a criação de um ideal nazista para as mulheres era algo secundário, um mero acessório do ideal de homens ariano. Só que Gertrud Bäumer, além de membro da política alemãs, era um braço direito tão importante de Hitler quanto os das demais áreas. O mais interessante é que a jornada de Gertrud Bäumer começou como feminista. Ela defendia a emancipação completa das mulheres, o aborto e o acesso feminino a todos os chamados direitos reprodutivos. Vem de uma geração anterior. Antes do nazismo alemão emplacar, havia diversos movimentos feministas no país. Gertrud Bäumer era uma importante voz de um deles. Com a ascensão e a consequente relevância política e social do ideal nazista, vários desses movimentos feministas continuaram existindo, mas quase todos pouco a pouco foram abrandando seu caráter mais "progressista" e adquirindo um tom mais conversador. A ponto de a própria palavra feminismo, presente entre a antiga geração para se referir coletivamente aos movimentos em prol dos direitos das mulheres, se tornar inócuo posteriormente, desconhecida ou quase totalmente desconhecida com o passar dos anos. Gertrud Bäumer e outras feministas teriam mudado de ideal ou apenas se tornado mais flexíveis para não perderem o poder institucional e a influência na sociedade que tinham antes? Não sabemos.
É verdadeira a alegação de que o acesso das mulheres ao mercado de trabalho e às universidades era muito maior durante a República Weimar. Mas associar essa mudança com a política nazista é um erro. Nenhuma das políticas adotadas por Hitler para incentivar o vertiginoso aumento da taxa de natalidade característica de seu governo e não coincidentemente compatível com o novo ideal social consistiu em impedir as mulheres de seu acesso ao mercado de trabalho formal, tampouco às universidades. A única, mas eficiente, política nazista adotada para incentivar uma alta da taxa de natalidade foi diminuir os impostos cobrados para casais com filhos. Só com essa medida, a taxa de natalidade aumentou rápido e facilmente, e esse bônus econômico para casais com filhos, além do incentivo para famílias numerosas, gerou ainda um outro benefício adicional. Durante a República de Weimar, a maior parte das mulheres trabalhavam muito mais por necessidade do que por vontade própria. Isso pode ser evidenciado pela menor jornada de trabalho formal feminina e a preferência por jornadas curtas, visíveis nas estatísticas. Depois, a evidência mais importante: com as vantagens econômicas concedidas aos casais com filhos, o aumento significativo do salário dos maridos finalmente possibilitou a maioria das mulheres emancipadas a voltar para o lar, pois já não havia mais a mesma necessidade de trabalho por parte delas na garantia de sustento da família.
REFERÊNCIAS
CREVELD, Martin Van. O sexo privilegiado. Campinas: Vide Editorial, 2023.




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