A Descoberta de Um Dogma Secular

Muitas pessoas acham ou são levadas a acreditar que o radicalismo extremo do feminismo se restringe à sua ala mais radical, as radfens. Eu também tinha a mesma opinião, mas, depois que fui estudando, por conta própria e com interesse genuíno, mais e mais o feminismo — inclusive recebendo o apoio de amigas e colegas feministas que eu jurava que eram verdadeiramente comprometidas com a justiça —, eu comecei a compartilhar mais e mais também o resultado dos meus estudos. Elas me ouviam, tiravam minhas dúvidas e explicavam tudo para mim com uma calma e paciência que eu admirava.
Essa “fofura”, no entanto, a partir de um determinado momento, começou a ser desafiada. Um episódio marcante e decisivo foi quando descobri que o livro Manifesto SCUM, da feminista radical Valerie Solanas, ao contrário do que elas haviam me informado, tivera sim um grande impacto quando fora publicado, recebido com grande entusiasmo pela imprensa feminista e por muitas das maiores autoridades do feminismo americano na época. Houve sim também problematização e oposição: talvez a mais relevante tenha vindo da feminista Betty Frieden, responsável por ter iniciado a segunda onda do movimento nos Estados Unidos, em 1963, por meio do clássico best-seller A Mística Feminina.
Quanto a isso, reforço que meu ponto nunca foi em contestar a oposição de feministas sensatas a esses absurdos, porque é algo que sempre existiu e ainda existe, embora de forma mais tímida e menos barulhenta. Longe de mim querer ser negacionista. Não ganho absolutamente nada em demonizar todas as feministas, quando eu mesmo me considero um homem feminista e cuja identificação com o feminismo se deu precisamente através dessas feministas sensatas. Meu ponto é contestar tão somente a ideia sem base de que Valerie Solanas nunca foi levada a sério e não recebeu apoio algum de setores relevantes do movimento feminista. Até porque os fatos são bastante claros. Tanto que mencionar apenas um deles já é sugestivo o suficiente.
Entre 1967 e 1968, a feminista Ti-Grace Arkison ocupou a presidência da NOW (Nation Organization For Women) — até hoje, a principal organização feminista dos Estados Unidos. Chegou a ir visitar Valerie Solanas na prisão, logo após a colega tentar matar o artista Andy Warhol e outros dois homens, para prestar solidariedade e receber um autógrafo no seu exemplar do Manifesto SCUM (Society for Cutting Up Men). Ou seja, Valerie Solanas recebeu apoio fervoroso de ninguém menos que a líder do movimento feminista americano, na época.
Quando contei as minhas descobertas para as amigas e colegas feministas que tanto me apoiavam e incentivavam, esperava, é claro, que tivessem uma reação. senão igual, mas semelhante à minha. Mas o que me deparei foi com o oposto: com absoluto desdém. Desdém completo. E ainda tentativas infundadas, sem nenhum sentido, de que eu estaria usando aquilo para deslegitimar o feminismo e culpar as mulheres. Essa alegação sequer tinha lógica. Até porque sempre havíamos concordado em conjunto que existia sim certo radicalismo no feminismo e que de fato Valerie Solanas nunca foi um exemplo de feminista a ser seguido, tampouco uma mulher que tivesse alguma característica digna de admiração.
De uma hora para outra, as minhas amigas e colegas se tornaram advogadas da Valerie Solanas e de todas as radfens, essas que tanto juraram odiar.
Não por acaso, passei, no decorrer dos anos, a sentir uma espécie de prazer sádico em confrontar esse tipo de feminista, apelidada de “fofa” por mim, pela ironia que a palavra carrega.
O meu objetivo ao confrontar esse tipo de feminista, se antes era apenas motivado por debate genuíno, busca pela verdade, acabou inevitavelmente deixando de ser. Vi que, na verdade, eram radfens disfarçadas. Essa conclusão, que obtive a partir dali, ficava cada vez mais nítida e autoexplicativa. Desde então, passei a adotar o seguinte método: confrontar esse tipo de feminista insistentemente até cansá-las, fazê-las acabar com todas as justificativas esfarrapadas para defender tanto absurdo.
Sempre que eu chego a esse ponto, cai a máscara até da mais “fofa” de todas essas feministas. Ela, de qualquer modo, vai acabar confessando que odeia homens, que odeia a família, que odeia mulheres que ainda não “despertaram” para essa “fúria feminista”, como ela; que odeiam tudo de virtuoso que existe no mundo.
Mesmo já tendo feito isso várias vezes e constatado, pela própria experiência, que esse método é infalível, nunca deixa de me chocar ver, pela primeira vez, o monstro, cheio de ódio, ressentimento, rancor e amargura possível, sendo desnudado de um rosto, aparentemente, tão sincero, ingênuo e inofensivo.






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