Não Existe Feminismo, Existem Feminismos

Historicamente, o voto nunca esteve atrelado como pauta necessária para a emancipação feminina. As associações de mulheres que eram contra o movimento das sufragistas, por exemplo, defendiam isso, e usavam até Marie Curie como exemplo. Na época em que terminara de ser laureada pelos dois Prêmios Nobel, somente dois países haviam legalizado o voto feminino: Nova Zelândia, Finlândia e, parcialmente, a Noruega, que virou totalmente dois anos depois, em 1913. Até mesmo o país que é acostumado a apontar como o pioneiro no movimento sufragista, o Reino Unido, só viria a conseguir esse feito entre 1918 e 1928.
Uma das mais famosas sufragistas britânicas, Emmeline Pankhurst, imortalizada pelo governo do Reino Unido numa estátua em Londres, por incrível que pareça, não defendia o sufrágio para todas as mulheres. Pelo contrário, era uma mulher burguesa e extremamente elitista, que usava o bordão “voto feminino das dez libras”. Sim, isso mesmo. Somente mulheres ricas deveriam ter o direito votar, segundo a ativista. Mulheres ricas conquistaram o direito ao voto em 1918, enquanto as de classes menos abastadas tiveram que esperar mais uma década inteira.
O revisionismo histórico feminista mainstream é muito desonesto, até em coisas mínimas. Segundo essa tradição, homens votavam por serem homens e o voto feminino colocou os sexos em oposição. Mas nenhuma dessas alegações é verdadeira. O voto feminino nunca opôs homens e mulheres. Essa pauta era cheia de nuances e que as razões para apoiar ou ser contra eram diversas. Isso de fato é algo que feministas — no geral — deixam de comentar, por pura conveniência.
O voto antigamente por muito tempo não foi secreto e havia um medo de que os homens pudessem coagir suas mulheres a votarem em seus candidatos, da mesma forma como os empregadores faziam com seus empregados, duplicando assim os votos. Além disso, muitas mulheres se opuseram ao voto feminino, pois, sendo este atrelado ao serviço militar, elas tinham medo das implicações disso. Era o que temia, por exemplo, mulheres como Ida Tarbeli, uma das mulheres mais emancipadas e influentes dos Estados Unidos na primeira metade do século XX, pioneira do chamado jornalismo investigativo. Tanto que, se um homem acovardasse e se recusasse a lutar numa guerra caso fosse convocado, ele perdia os direitos de cidadania e, em vários casos, era até preso.
A Primeira Guerra Mundial foi a primeira das denominadas “guerras totais”, termo cunhado pelo historiador Eric Hobsbawn por, ao contrário de outrora, envolver todos os setores da sociedade. Foi justamente nesse contexto, em que toda a população esteve envolvida na guerra de alguma forma, que a luta pelo sufrágio universal ganhou impulso. É tanto que o próprio alistamento militar obrigatório foi considerado constitucional dessa forma, na ideia de uma reciprocidade mútua: de que os cidadãos só poderiam ser convocados para uma guerra por um governo que tivessem eleito.
No Brasil, pelo menos para homens, o voto continua atrelado ao serviço militar. A maior prova disso é que, se um homem se recusa a fazer o alistamento caso convocado, ele não vira reservista e, sem isso, ele invalida o título de eleitor.
Tudo isso evidencia uma característica presente em todos os movimentos políticos, mesmo aqueles que decolam a partir de bases legítimas de emancipação: tentativas incessantes de apagar os erros do passado reescrevendo a História. Só que a reescrever a História distorcendo ou omitindo fatos consiste, na verdade, em falsificar a própria História. Qual a necessidade disso? Reconhecer os méritos do feminismo não impede de reconhecer seus deméritos.
É necessário algo mais preciso do que definição limitante do dicionário. Até mesmo porque definição de dicionário costuma ser arbitrária. Pelo menos, a partir do momento em que desconsidera a disputa pela apropriação legítima dos termos. O dicionário brasileiro, por exemplo, apenas está adotando a definição hegemônica, que vem do próprio feminismo hegemônico hoje. Mas os conceitos, toda essa discussão semântica, sempre foi lugar de disputa ao longo da História, e continua. Incialmente, quem se denominava liberal nos Estados Unidos era de fato liberal no sentido brasileiro. Mas os progressistas passaram a adotar o termo para rotularam-se. Os antigos liberais, temendo serem confundidos com os progressistas, mudaram-no para libertariam (libertário), que evoluiu para designar, além do liberalismo em si, austrolibertarianismo, anarcocapitalismo, minarquismo, anarcoindividualismo, voluntarismo e anarcocomunismo. Tudo isso acabou afetando o feminismo brasileiro. Feminismo liberal nos Estados Unidos acabou se transformando em progressismo, e nada tem a ver com liberalismo. Entretanto, muitos insistem em presumir que se trata de liberalismo no sentido brasileiro. Identifico-me como feminista individualista, que é mais conhecido aqui como feminismo libertário, resultado dessa bagunça semântica. O apego equivocado à definição de feminismo do dicionário ainda se choca com a pluralidade de vertentes. A qual vertente se refere, especificamente? Segundo: se o dicionário oficial do português brasileiro adota essa definição, isto acaba por refutar o próprio feminismo mainstream/coletivista, ainda insistente em descrever a realidade atual do Ocidente como patriarcal. Tudo aquilo que é oficial é estrutural, institucional, pois está relacionado ao Estado e sua rede de apoiadores dominantes. Então, se esse feminismo é estrutural, como pode ser, ao mesmo tempo, machista estrutural?
Em suma, não existe feminismo, mas feminismos. Tanto o feminismo bom como o ruim são feminismos. Não existe um determinado tipo de feminismo que é verdadeiro e outro que é falso. Se assim fosse, inúmeras feministas deixariam de ser feministas. Um exemplo notável envolve as críticas detratoras de bell hooks e Angela Davis ao racismo de Susan Brownmiller, feminista que foi a pioneira na compreensão do estupro como uma forma de controle e poder sobre os corpos femininos, acabando por dar origem às primeiras discussões sobre a cultura do estupro. Inicialmente, Brownmiller iniciou esse debate focando num típico específico de estuprador: o homem negro. Quanto aos homens brancos, o discurso já era diferente. A crítica, muito mais branda, se centrava em culpá-los por serem omissos “à influência nefasta e depravada característica do homem negro, cujos estupros assolavam a vida das mulheres brancas”. Sim, Brownmiller era uma mulher branca. Por que ela não falou das mulheres negras? Qual o motivo de toda essa atenção especial para as mulheres brancas, como se fossem as vítimas exclusivas?
O fato é que, ao longo dos anos, o discurso de Brownmiller virou politicamente incorreto. Já não podia mais ser naturalizado ou justificado. Qual a saída que ela buscou? Alterar o que já havia dito e publicado? Reescrever sua teoria, que estava se espalhando com forças pelas universidades americanas e prestigiando sua carreira acadêmica, dando-lhe dinheiro suficiente para gastar como nunca fez na vida? Sim, uma mistura de tudo isso. Para justificar suas declarações racistas, passou desde então a sustentar um argumento de que o homem negro estupra não por sua natureza, mas por se situar, de forma majoritária, num ambiente de alta vulnerabilidade, no seio de uma sociedade que normalizou a violência através do discurso do homem branco. Ou seja: a partir deste momento, a sua teoria foi alterada. Pelo que podemos concluir, não necessariamente porque sua visão mudou, algo bastante questionável. Mas porque seu racismo passou a ser punido.






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