A Teoria do Conflito e A Violência Doméstica
- Alexandre Braga

- 18 de set. de 2025
- 3 min de leitura

O caso estarrecedor, que foi o assunto mais comentado por semanas em todo o Brasil, envolvendo uma mulher brutamente agredida no elevador, certamente reacendeu os debates sobre violência doméstica. Mas trago aqui uma abordagem um pouco diferente, em que a única semelhança com as demais está no repúdio completo ao ato, na solidariedade à vítima e na devida punição do agressor. Sendo feminista e, antes de tudo, austrolibertário, tampouco tive coragem de assistir ao vídeo na integra.
Vamos agora aos fatos. Deparei-me com algumas pessoas na internet falando absurdos: como hipóteses de que, como nem tudo da vida íntima do casal foi filmado, ele podia estar apenas agindo em legítima defesa. Mas que pessoa só defende e dá 60 socos em outra? É uma reação desproporcional. E, convenhamos, ainda que fosse proporcional, melhor deixar solto um possível agressor do que condenar um possível inocente. É curioso que, muitas vezes, quem mais brada contra falsa de acusação, é o primeiro a defender esse tipo de atitude.
Outra questão que precisa ser levantada é a persistência do dogma de tratar a violência doméstica exclusivamente como um problema de gênero, algo que tem sido predominante há pelo menos algumas décadas, quando, nos Estados Unidos, a feminista Ellen Pence criou o Modelo Duluth, inspirando-se na Teoria do Conflito.
Desse modo, o Modelo Duluth é a versão feminista da teoria do conflito, de que a violência tem como única causa o terrorismo patriarcal dos homens contra as mulheres. Como a mulher não tem poder no patriarcado, ela só comete violência em legítima defesa ou como ação meramente reativa. O conceito de "violência de gênero" vem desse Modelo Duluth, cujo coletivismo é bem característico.
Quando o assunto envolve os deméritos da História da Humanidade, as feministas mainstream tratam as mulheres como seres passivos, movidos por pressões externas. Já quanto aos méritos, a retórica muda para um sentido oposto: as mulheres de repente aparecem como seres ativos.
Com essa desonestidade conveniente, conseguem sustentar que as mulheres não têm responsabilidade alguma pela podridão legada pela História humana, devido ao domínio masculino do poder formal. Só que se “esquecem” que o mesmo poder formal que levou a essa responsabilização histórica dos homens proporcionou também a eles os créditos pelas glórias da humanidade, cuja busca pela cumplicidade das mulheres guiou toda uma cadeia de estudos feministas de caráter revisionista.
Da mesma forma, há vários problemas no Modelo Duluth. Ele considera que a única coisa que motiva os conflitos num relacionamento heterossexual é o desejo de dominância do homem sobre a mulher. Ignora por completo a participação ativa feminina na violência, tratando a mulher como mero objeto passivo que, no máximo, só responde a estímulos, além de acabar desconsiderando a violência no contexto de casais homoafetivos. Quando casos assim vêm à tona, interpretam apenas como um efeito colateral das relações heterossexuais. Mas, se a violência doméstica é somente fruto de desequilíbrios de poder, como pode haver violência entre casais do mesmo sexo, visto que, segundo esses mesmos estudiosos, inexiste desequilíbrios de poder, quanto ao gênero, nesse tipo de relacionamento?
Aliás, existem uma série de estudos não dogmáticos que mostram uma outra realidade. Parte deles, compilado por Murray A. Straus, da Universidade de New Hampshire, Durham. Ele e a professora Suzanne Steinmet também conduziram estudos que mostraram que os homens eram vítimas de violência por parceiro íntimo com frequência similar à das mulheres. De maneira alguma, eles negam a seriedade da violência doméstica contra parceiras do sexo feminino. Em vez disso, mostraram apenas que havia outro problema negligenciado. Isso despertou a indignação em alguns setores. A professora Steinmetz recebeu telefonemas ameaçando seus filhos. Quando ela falou em uma conferência da American Civil Liberties Union, foram recebidas ameaças de que, se ela pudesse falar, o lugar seria bombardeado. Murray Straus foi interrompido, vaiado, alvo de piquetes e caluniado das formas mais terríveis e infundadas, conforme relata David Benatar, na obra O Segundo Sexismo.
É claro que todos podem ter uma ideologia. Mas só poderemos combater a violência doméstica de maneira efetiva se, de fato, não permitirmos que nossas crenças prévias sacrifiquem a abordagem científica que queremos.




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