Planetas de Sangue
- Alexandre Braga

- há 5 horas
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Para rastrear Adrag, basta seguir a trilha dos Planetas de Sangue.
— Provérbio Hitaísta.
Por centenas de bilhões de anos após causar a fragmentação da obra-prima divina, que deu origem ao multiverso interno, como os mortais o conheciam, Adrag prosseguiu em sua jornada de morte. Numa das três vias interdimensionais, permaneceu solitário no Abismo dos Tentáculos Agourentos, só esperando o momento certo para desestabilizar o acordo firmado com o casal divino, que estabelecia um perfeito estado de equilíbrio naquela zona do multiverso. O equilíbrio perfeito entre o bem e o mal, a vida e a morte, a construção e a destruição, a ordem e o caos, a luz e a escuridão.
Os olhos vermelhos e ameaçadores, sedentos por caos, discórdia e destruição infinita, esquadrinhavam cada vestígio de vida racional que se formava pelo espaço, movimentando-se a cada indício de oportunidade detectado. Por mais que muitas vidas tenham se formado no decorrer desse tempo, nenhuma delas de fato atendeu às suas expectativas, oferecendo somente chances muito remotas de ataque.
Quando, por fim, os olhos de Adrag tornaram a se fixar, estavam diante do mesmo planeta azul que observara antes, o único habitável a orbitar uma estrela. Ao contrário das outras vezes, detectou, porém, naquele momento, uma oportunidade de ataque jamais vista. Tão certeira que, de longe, propiciaria, consequentemente, também, a morte de seus irmãos estéreis: de todos os planetas vizinhos inabitados.
Azul é uma cor inadequada, pensou Adrag, eu mudaria para vermelho.
Mas um olhar sensato diria que ele era azul somente. Ou, pelo menos, azul na maior parte, pois, além das nuvens que flutuavam sobre sua atmosfera, havia continentes imensos e verdejantes; outros, desérticos em certas áreas; e alguns inteiramente cobertos por gelo e neve.
Assim como em outros planetas, a vida lá teve de recomeçar do zero, evoluindo a partir do comportamento e da interação entre cada partícula atômica, herança da fragmentação da Única Espécie Racional, o universo unificado.
O fenômeno deu origem a uma variada gama de espécies. Adrag, naturalmente, mirou naquelas que mais se assemelhavam à obra-prima divina, pois não poderia agir de outro modo senão através de ações intencionais, de indivíduos dotados de razão.
Não por acaso, o desenvolvimento da inteligência em algumas espécies animais coincidiu com o surgimento do culto aos Dois Que São Um e ao seu oposto, Adrag.
O mundo tornou-se, de repente, bipolarizado; de um lado, os que queriam que a luta pela sobrevivência se pautasse em preceitos morais; do outro, os que queriam a relativização de tudo, variando o que fosse permitido de acordo com as conveniências circunstanciais e arbitrárias dos grupos dominantes.
Esta condição marcou dezenas de milhares de anos desde o início do avanço da inteligência em algumas espécies, que viviam da caça e da coleta, prolongando-se desde o fim da Era Arcaica à gênese da Era Clássica em diante, que deu lugar às primeiras civilizações.
Havia, de fato, algo de muito peculiar naquele planeta, que logo chamou a atenção de Adrag. Para começar, vida inteligente em abundância! E ainda uma espécie que despertava e muito a sua curiosidade: uma das mais inteligentes, tendo como habitat o interior do planeta, o interior do que chamou de Planeta de Sangue Central. Exatamente onde se achava parte do que eles chamavam de pedras mágicas, herança dos Dois Que São Um para protegê-los, pois abrigavam a própria alma divina, o suficiente para repelir os ataques do predador de átomos.
Adrag gargalhou.
Pobres planetas, já com a semente de sua própria destruição...
Os Planetas de Sangue! O nome perfeito!
Centrou-se em estudar o comportamento daquela espécie singular de vida inteligente, que, aos poucos, se desenvolvia: os anões. Tentando decodificar seus hábitos e costumes, além de suas principais preocupações e anseios. Agindo através das más índoles, via pedras mágicas, que, uma vez tocadas, dariam lugar à sua alma, exatamente como a luz cedia à escuridão, assim que apagada.
Na hora certa, os tentáculos se esticaram para fora do Abismo e, com eles, uma fumaça escura, que viajou longa distância, até se misturar à atmosfera do Planeta de Sangue Central.
Era a sombra do multiverso, submergindo das trevas, pela primeira vez, desde a Cisão Entre Dois Mundos.





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