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Nos Confins do Nada


Toda destruição requer uma construção prévia.  — Provérbio Hitaísta.

 

 

Como começar uma história? É, certamente, uma pergunta que povoa a imaginação dos escritores. A cada livro iniciado, quase onipresente. Quando não se tem algo satisfatório ainda, chega a incomodar. Mas, como narrador, já vou adiantando: não serei nada original nesse quesito, pois tudo o que se segue aqui, acredito eu, tem por si só capacidade o suficiente para fisgar o meu leitor. Afinal, eis que aqui se trata do início de uma biografia.

Se escrever uma biografia é um exercício de memória, quem melhor para escrever algo do gênero, senão o Tempo, o detentor de todas as memórias?

Pois bem. Muito prazer, eu sou o Tempo! Para os mortais, sou uma espécie de semideus ou algo parecido. Detentor de todas as memórias, testemunha direta de toda a história do universo. Ou melhor... do multiverso. Entretanto, a verdade é que o multiverso, ou melhor, a força que o originou, é mais velha do que eu. E esta explicação deve ocupar as páginas preliminares da obra.

Aqui cabe uma ressalva: utilizei temos e conceitos que, talvez, de início, pareçam confusos e não sejam entendidos. Atendem às demandas de um contexto maior que, pouco a pouco, prometo desnudar, cuja compreensão é necessária para qualquer tentativa de entendimento. Desde já, peço perdão. Mas é a solução que encontrei para o texto não ficar muito maçante.

Inevitavelmente, no preâmbulo da narrativa, tive de recorrer apenas ao uso de representações, pois a minha natureza — por definição, temporal, assim como a da maioria dos meus possíveis leitores, — já servia de barreira para uma compreensão literal de um mundo que começou atemporal.

No princípio — conforme me relataram meus grandes mestres, o casal divino, após o despertar de minha consciência —, havia os Dois Que São Um e o temível Adrag: Hito e Hita e a antítese de si mesmos.

Na Fronteira do País Além-do-Espaço com o Abismo dos Tentáculos Agourentos, seus espíritos colidiam no vácuo furiosamente, como sinônimos colidem com antônimos e coexistem-se. O impacto da colisão arremessou o País Além-do-Espaço para o Norte, e o Abismo dos Tentáculos Agourentos para o Sul.

— Estamos longe dele agora! — contentaram-se os Dois Que São Um.

Aproveitaram a oportunidade e sopraram.

Do vapor exalado, nos confins do nada, materializou-se a primeira unidade da matéria, que, com a visão superior e reveladora de Hita, a qual Hito tinha acesso exclusivo, se multiplicou até formar Xundra e Muam, a versão corpórea do que imaginou o próprio Divino, sua legítima obra-prima.

Os Dois Que São Um viram que tudo era bom.

— Suas visões são sempre maravilhosas e inspiradoras, Hita. Já é hora de testar as duas criaturas, não? — indagou Hito, a primeira metade divina, que, no Mundo dos Mortais, ficaria conhecido como o Deus dos Astros e do Espaço.

— Sim, vamos testá-las agora! — concordou Hita, a segunda e mais elevada metade divina, que, após a Cisão Entre Dois Mundos, ficaria marcada como a Deusa da Vida. — Não temos saída. O acordo com Adrag há de ser feito, apesar de toda a sua maldade e sede por caos e destruição completa.

Do novo sopro dos Dois Que São Um, duas vias espaciais, delimitadas por nuvens de poeira, se formaram, separando a obra-prima de seus criadores.

Do outro lado, Xundra e Muam observavam tudo, trocando olhares apaixonados e indagadores, perplexos com a percepção de seus sentidos; ao mesmo tempo, fascinados. Xundra, particularmente, estava encantado com a beleza e a grandiosidade de Muam, reflexo do poder maior de Hita, a criadora de tudo e todos, a força da unidade. De igual maneira, Muam se encantava com o vigor de Xundra, reflexo da força ativa de Hito.

A voz da Deusa, semelhante à de sua criatura, porém dotada de uma imponência, mesmo assim, muito maior, ressoou firme e clara pelo vazio:

— Ó, Xundra e Muam, nossa grande obra-prima! Pela Via da Luz, venham até nós! Somos os Dois Que São Um!

O desejo de obediência à autora daquela voz ocorreu de forma natural — nisto conferia sua autoridade.

Tão agradável aos seus ouvidos era! Soava como uma melodia.

— Sim, Majestade! — responderam com entusiasmo, ajoelhando-se em reverência, enquanto flutuavam no vazio, até pararem diante das nuvens de poeira. — Estamos indo agora, estamos indo agora, ó, Vossa Majestade que nos criastes!

Uma luz intensa iluminou a via da direita.

Xundra e Muam se encantaram com ela.

— É tão... linda! — impressionou-se Muam.

— Essa é a Via da Luz — apresentou Hita. — Ela representa a nossa amizade.

— A nossa amizade?

— Sim!

As duas criaturas sorriram. Seus olhos, que traziam a mais pura inocência infantil, refletiam toda aquela luminosidade, com a plena graça da alegria de viver.

O coração dos membros da Única Espécie Racional, contudo, facilmente tentado pela curiosidade, fez com que eles também parassem para espreitar a via da esquerda, perdida por completo na escuridão.

— O que será que tem lá dentro? — quis saber Xundra.

— Não sei — respondeu a sua parceira. — É estranho... Não consigo ver nada.

Imediatamente, sentiram que estavam diante de um terreno desconhecido: o que quer que houvesse lá dentro estava sendo ocultado pelo breu.

— E esse outro caminho, Majestade?

— Essa é a Via Sombria — apresentou Hita. — Se entrarem, se forem por esse caminho, deixarão os nossos e os vossos corações demasiado entristecidos. Além disso, morrerão e serão conhecedores, assim como nós, do bem e do mal. Cairão no Abismo dos Tentáculos Agourentos para sempre.

— Mas o que é o Abismo dos Tentáculos Agourentos? — perguntou Xundra.

— Um lugar onde há escuridão e sofrimento eternos.

— Escuridão e sofrimento eternos? — Os olhos de Muam se escancararam.

— Sim. Um vazio infinito onde não existe o bem, somente o mal. Nós, os Dois Que São Um, somos o bem, assim como todas as coisas que criamos são o bem. Se forem pela Via Sombria, perderão a sua essência. Deixarão de ser quem são. O medo reinará sobre vós para toda a eternidade.

Xundra e Muam, embora não entendessem bem o significado daquelas palavras, sabiam do desejo de Vossa Majestade, e não se imaginavam distantes da Luz.

Mas não sabiam explicar o porquê: o desconhecido também despertava tanta curiosidade...! Talvez por não saberem o que esperar dele. Bem, não importava.

Escolheram a via da direita, sem hesitar, mas, antes de prosseguirem, pararam para dar uma rápida espiada na outra, bem de perto, logo na entrada. Só uma espiada rápida não deveria realmente fazer mal, por que deveria?

Porém, às suas costas, imediatamente, a nuvem de poeira fez uma curva acentuada, fechando a via, como se fosse uma porta.

Ao olharem para trás e verem a entrada bloqueada, Xundra e Muam assustaram-se de súbito.

Estremeceram. Logo se arrependeram de terem tentado saciar aquela curiosidade. Agora já não tinham mais como voltar. O que, exatamente, lhes aconteceria ali? Era o que descobririam a seguir.

 

 

***

 

 

Conforme avançavam, a via da esquerda ia se revelando. Não era nada agradável. Tentáculos, poeira e os olhos vermelhos assustadores de Adrag se enroscavam em seus corpos. O cheiro do ar era horrível, pesado e indescritível; fazia respirar parecer um esforço.

Procuraram meios de buscar ajuda a todo custo, mas falar nunca se mostrou tão cansativo. Esforçaram-se, então, para emitir algum som, para gritar, mas suas palavras iam morrendo em virtude da exaustão, ao passo que a densidade do ar só aumentava, impedindo-os de fazerem qualquer parada.

 

 

***

 

 

Foi debaixo de uma tempestade cósmica, durante um tempo que pareceu interminável, que chegaram ao fim da via. Assim como a da direita, ela desapareceu, como se tudo fosse miragem.

— Por que não nos atenderam? — indagaram os Dois Que São Um, acabado o trajeto. — Por que foram pela Via Sombria, e não pela Via da Luz, como expressamos em nossa vontade?

O tom incisivo da pergunta as deixou assustadas. Sentimento este que, para ambas as criaturas, era completamente novo.

— Mas nós não queríamos ir por aquela via! — apressou-se Xundra a explicar.

— Só queríamos dar uma espiada nela! — complementou Muam.

— Não interessa! — vociferou Hito, e sua voz lembrava a de Xundra, apesar da imponência, que também conseguia ser muito maior. — Não era para vocês terem entrado lá em hipótese alguma!

Xundra e Muam não souberam mais o que falar. Ficaram em silêncio, contemplando-o de cabeça inclinada.

— Agora, infelizmente, vocês terão de carregar um fardo muito além de sua capacidade de suportar — lamentou Hita. — Para quase todo sempre.

A tempestade cósmica se intensificou; parecia-lhes o reflexo da fúria dos Deuses despertando.

Xundra e Muam outra vez se assustaram.

Perceberam que estavam nus, mas seus corpos, cheios de feridas. Cobriram-se o máximo que puderam, enquanto gritavam sem parar.

A eternidade havia sido rompida, e a pureza, desvanecida.

Ao longo da jornada, passaram a conhecer o bem, o mal e a morte.

Xundra e Muam se fragmentaram em minúsculas partículas, e desabaram.

Jorrados para fora do País Além-do-Espaço, os fragmentos salpicaram o vácuo.

Foi quando eu, o Tempo, finalmente vim ao mundo. Alguns desses fragmentos convergiram, e me formaram. Estabeleci os limites da fronteira temporal, a Cisão Entre Dois Mundos, o Mortal e o Espiritual.

Iniciei, então, minha jornada, e o restante dos fragmentos continuou a desabar. Uns também se fundiram, formando Neutrópolis, o País dos Seres Que Não Existem; outros deram origem a todos os três grandes mundos, cada qual formado por diversos seres vivos, estrelas, planetas, cometas, asteroides, satélites, buracos negros e buracos de minhoca, que, além de fornecerem atalhos no espaço, não só os conectavam entre si, como também lhes davam acesso aos infinitos mundos externos, verdadeiros escapes da imaginação divina.

Captei qual era minha função. Através de mim, os Dois Que São Um dividiram o espaço em dois firmamentos: um que o delimitava do País Além-do-Espaço, lar dos Dois Que São Um; outro que o delimitava do Abismo dos Tentáculos Agourentos, lar de Adrag.

No despertar de minha consciência, deparei-me com a luz primordial. A luz azul e rosa de Hito e Hita, que, de tão intensas, ofuscavam até a minha. Acima, as duas luzes se mesclavam, a ponto de fundirem-se, enquanto abaixo de mim bifurcavam-se. Pois Hita, sendo a metade mais elevada dos Dois Que São Um, era a direção; Hito, o movimento; Adrag, a destruição. No País Além-do-Espaço, o casal de Deuses continuou a ser um só, enquanto, no Mundo dos Mortais, Adrag, limitando a energia primordial, impedia esta fusão.

 

 

***

 

 

Apesar das duas singelas criaturas não terem passado no teste, a misericórdia de Hita era grande. Abraçou cada planeta e cada satélite, abençoando os fragmentos de vida da Única Espécie Racional, espalhados ao longo das galáxias, em sua luta incessante contra a ambivalência da natureza, benevolente e traiçoeira, como as estrelas.

A esperança passou a contrastar com a sombra existente no multiverso. Possibilitando que, por meio dos Quatro Espíritos dos Dois Que São Um (os doclus, os espíritos guardiões; os islunos, os espíritos mensageiros; as lorgandas, os espíritos da moralidade; e os Filhos da Profecia, Aalenir e Aalenur; nada menos que a versão corpórea do próprio Divino), a Filosofia Hitaísta fosse aplicada e solenemente respeitada; a Cisão Entre Dois Mundos, abolida posteriormente.

Assim, seus verdadeiros seguidores passariam a poder regressar para o País Além-do-Espaço, onde viveriam em paz, harmonia, fraternidade e abundância, eternamente, após completarem a Jornada da Vida.

— Nem mesmo vossa obra-prima escolheu segui-los! — provocou Adrag.

— Mas merece uma segunda chance, pois tanto Muam quanto Xundra desconheciam a dualidade do bem e do mal, e o que não é conhecido não pode jamais ser aprendido! — Hito e Hita responderam à altura, e disseram a Adrag, desafiadores: — Para sempre criaremos!

— E para sempre comerei o que vós criareis! — retorquiu ele.

— Então agora que terás comilança, devora os teus seguidores e, aos nossos, não trazes mais dores!

Pois, no multiverso, sempre houve a dicotomia do Outro, e foi pensando nesse aspecto que os Dois Que São Um decidiram criar o mundo. Entretanto, para isso, tiveram de negociar com o Inimigo, Adrag, o Senhor do Caos e da Destruição.

Como possuíam objetivos muito bem delimitados e excludentes, deste acordo, três grandes mundos surgiram: um mundo onde Hito e Hita agiam primeiro, que eu denominei de mundo 1; um mundo onde a manifestação temporal de Adrag se antecipava em suas ações diretas — o mundo -1; e outro onde a ações diretas das manifestações temporais das duas entidades antagônicas ocorriam simultaneamente, acabando por anularem-se: o mundo 0, ou mundo neutro.

Mas, na maioria das vezes, tanto a manifestação temporal dos Dois Que São Um como a de Adrag pouco intervinham diretamente nesta vasta tríade interdimensional, pois tinham um acordo a zelar, o motivo pelo qual passou a predominar no multiverso recém-formado um equilíbrio de forças mais ou menos estável. Tudo isso sem deixar de considerar o fato de as duas entidades antagônicas fazerem o possível para que um dos lados pesasse mais sobre a balança, cuja consequência acabou sendo precisamente o surgimento das três vias. Se era certo que a construção precedia a destruição, a infinitude da imaginação divina, razão pela qual a quantidade de multiversos externos sempre fora ilimitada — contendo o exato necessário para o apetite igualmente insaciável de Adrag —, ainda entrava como fator agravante. Ademais, qualquer decisão dos Dois Que São sobre limitar suas criações teria o poder de atenuar o poder destrutivo de Adrag, de imediato, como consequência, porém o Inimigo conhecia muito bem a natureza divina e que não poderiam agir contra ela. Por esse motivo, tinha certeza de que isso estava fora de cogitação. A necessidade infinita dos Dois Que São Um de criar era análoga à sua sede insaciável de destruir, afinal de contas.

Como foi dito, havia os mundos externos. Esta, porém, é a história inicial desses três grandes mundos internos, outra categoria de universos, os únicos que minha consciência acessa. Do seu multiverso e do meu. Uma biografia da gênese do nosso multiverso. A história de sua fundação.

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