O Alvoroço
- Alexandre Braga

- 26 de jan.
- 3 min de leitura

Nada define melhor as coisas do que as suas singularidades.
— Provérbio Hitaísta.
Após o tiroteio, as pessoas ainda disputavam o espaço nas calçadas, os corpos estendidos no chão. Sobre a faixa de pedestres, jazia um cadáver. Ao lado, estava uma conhecida ativista feminista, de grande prestígio, parada diante dele, perplexa. Lágrimas brotavam de seus olhos.
— A senhora era parente dele? — perguntou um policial.
— Não.
— E por que está chorando assim?
— Porque esses vigaristas chamaram a esposa dele de vagabunda — respondeu, virando-se para encarar a câmera, sem perceber a expressão atônita que se esboçou no rosto do policial.
— Os criminosos acabam de ser apreendidos — informou o outro repórter. — Uma das vítimas, um homem de quarenta e cinco anos, até então, com toda a vida pela frente e uma família linda para cuidar e zelar... Estarrecedor este caso, não, Roberta?
— Com certeza, Renato — concordou a colega de trabalho, enxugando as lágrimas. — E ainda mais estarrecedor o fato de os criminosos terem chamado a esposa dele de vagabunda, agindo com total desrespeito...
O chefe de polícia pareceu alarmado.
— Um tiroteio acabou de matar este homem, e a senhora dando destaque maior para a esposa dele, por ter sido chamada de vagabunda? Ah, faça-me o favor! São por coisas como essas que ninguém leva a sério esse ativismo psicopata de vocês, feministas!
O cinegrafista desligou a câmera, embora a multidão em volta da cerca continuasse filmando.
— Mas ele foi morto por outro homem, não foi? — Roberta se esforçava para preservar a paciência.
— E por isso é menos vítima?
— Eu não disse isso. Eu só quis dizer que é parte da masculinidade tradicional, que é tóxica e prejudica também a vocês, homens. Não veja o feminismo como inimigo, moço. Nós queremos libertar todo mundo, não só as mulheres.
— Ainda vem com esse papinho! Quer dizer que eu, que combato o crime em vez de cometê-lo, tenho menos masculinidade por que não sou um marginal?!
— Eu não disse isso...
— Quer dizer que o inventor da cesariana, por exemplo, que melhorou a vida de tantas mulheres, também não tinha masculinidade? — interrompeu o chefe de polícia, ainda mais aborrecido.
— Moço! Estou dizendo é o oposto...
— Então deviam ser mais gratas a ele.
— Como assim? — A paciência de Roberta atingiu seu limite. — Sabe qual o nome disso? Roubo de protagonismo! Isso mesmo! E a primeira pessoa a vencer Prêmio Nobel três vezes seguidas, sabe quem foi? Marie Curie: uma mulher! Por que vocês não são gratos a ela também?
— Já ouvi falar. Interessante! O que ela descobriu mesmo? Algo relacionado a um elemento químico, se não estou enganado... O que foi, exatamente, que ela descobriu? Não me lembro bem, mas gosto desses assuntos.
— É... é... é... — A feminista enrubesceu. Tentando disfarçar o constrangimento, virou o rosto para a amiga do jornalismo, que, naquela altura, era responsável pelo figurino, e ficava sempre fora do alcance da câmera. Os lábios da colega de tantas jornadas compartilhadas se articularam, sem emitir nenhum som: “Não faço ideia”.
— Não sabe o que ela descobriu? — insistiu o chefe de polícia, falando agora um pouco mais alto.
Sua interlocutora interrompeu o silêncio.
— Claro que sei! Mas é que não me lembro agora. Só decorei o mais importante: que ela era uma mulher!





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