A História das Duas Fadas

De um lado, as vestes de amor dos Dois Que São Um; do outro, as vestes de ódio de Adrag, o Senhor do Caos e da Destruição.
— Provérbio Hitaísta.
— Mamãe, por que existem tão poucas humanas-fadas do tipo formiga em Rayslanth?
A Humana-Fada-Rainha do tipo abelha, a mãe de todos, pela primeira vez desfocou o olhar da tela pluridimensional do minúsculo telec, onde analisava o último relatório acerca do balanço da produção de mel.
— Você acha pouco? — Inclinou-se para pegar a princesinha no colo.
— Acho. Nem as humanas-fadas do tipo formiga existem aqui. E é porque elas são as mais numerosas.
— Quem lhe disse isso, minha filha?
— Ouvi a senhora comentando com o papai uma vez.
— Sim, é verdade. Li sobre esse assunto.
— Por que isso, mãe?
— Quer saber mesmo?
— Quero!
A Humana-Fada-Rainha do tipo abelha sorriu. Contentava-se com toda a sede de conhecimento que, desde cedo, havia na menina. Estalando os dedos de um modo bastante particular, como se os gestos transmitissem algum significado específico, chamou suas auxiliares — as ainda mais diminutas protofadas do tipo abelha — baixinho:
— Por favor, tragam o livrinho que adquiri no último leilão. Está recostado naquela mesinha de madeira, onde tem o jarro da última rosa vermelha que ganhei de presente no Feriado da Mulher deste ano.
As ordens foram cumpridas.
Naquela altura, as humanas-fadas do tipo abelha eram alguns dos poucos fragmentos de vida da Única Espécie Racional a não contar com mão de obra mecanizada, pois viam que as protofadas do tipo abelha pareciam ter orgulho daquele ofício e faziam tudo com o maior gosto, voluntariamente. Como se vissem o trabalho como sua razão de viver. Não à toa, obtinham ótimos resultados.
Em pouco tempo, a Rainha já folheava as páginas do livro, que era todo ilustrado.
— Aqui temos a história da última humana-fada do tipo formiga e da última humana-fada do tipo cigarra.
— Oba! Lê para mim! — comemorou a princesa.
— Vou ler. Preste bastante atenção.
Bilinda, a humana-fada do tipo cigarra alegre e falante de conhecimento de todos, mais uma vez saltitava e dançava pelo bosque, sem se preocupar com nada. Naquela vez, entretanto, esbarrou numa humana-fada do tipo formiga, uma das fadas mais numerosas, como sua mãe dizia, mas que, praticamente, não dispunha de tempo para descanso.
Como de hábito, supervisionava o trabalho de uma protofada, que carregava uma folha pesada, em mais uma rotina puxada.
Bilinda pediu-lhe desculpas pelo acidente e a ajudou a se levantar. Tentada pela curiosidade acerca daquele estilo de vida tão diferente, indagou, falando um humano-fada-formiguês com sotaque:
— Ei, para que tudo isso, minha amiga? O verão é para a gente aproveitar! O verão é para a gente se divertir, ora essa!
— Não, não, não! Nós, as humanas-fadas do tipo formiga, não temos tempo para diversão. É preciso trabalhar agora para guardar comida para o inverno.
— Você quem sabe.
Durante o resto do verão e do outono, a humana-fada do tipo cigarra continuou se divertindo e passeando por todo o bosque. Quando tinha fome, era só pegar uma folha e comer. Simples, não?
Um belo dia, passou de novo perto da mesma humana-fada do tipo formiga. Ela supervisionava dezenas de protofadas carregando uma pilha de folhas douradas, típicas da estação.
— Deixa esse trabalho para as outras! Vamos nos divertir. Vamos, humana-fada do tipo formiga, vamos cantar! Vamos dançar!
Ela pensou um pouco. Gostou da sugestão. Só um pouco de divertimento não deveria fazer mal... por que deveria?
— Qual o seu nome?
— Bilinda. E o seu?
— Zena.
— Muito prazer, Zena.
Cumprimentaram-se com um aperto de mão.
A humana-fada do tipo formiga resolveu ver a vida que a humana-fada do tipo cigarra levava e ficou encantada. As duas deslizaram pelos galhos e pelo tronco das árvores, balançaram-se nas folhas, se divertiram muito!
Zena decidiu mudar seu estilo de vida para aquele. Tão divertido ficar brincando, não ter de supervisionar aquele trabalho chato!...
No dia seguinte, contudo, apareceu a Humana-Fada-Rainha da Casa Real do formigueiro. Ao observar a filha se divertindo à toa, olhou feio para a menina e ordenou que voltasse ao trabalho. Tinha, enfim, terminado a fartura.
Falou então para a fada-humana do tipo cigarra:
— Se não mudar de vida, no inverno você há de se arrepender! Vai passar fome e frio!
A preguiçosa nem ligou. Fez um gesto de reverência para a rainha.
— Ham! O inverno ainda está longe, Majestade! Tenho de aproveitar o máximo possível!
Para a fada-humana do tipo cigarra, o que importava era aproveitar a vida, e aproveitar o hoje, sem pensar muito no amanhã. Para que construir um abrigo? Para que armazenar alimento? Ainda naquela altura, pura perda de tempo.
Quando o inverno chegou, porém, veio o peso na consciência. A humana-fada do tipo cigarra começou a tiritar de frio. Sentia seu corpo gelado e não tinha mais o que comer. Desesperada, foi bater na Casa Real da humana-fada do tipo formiga com quem fizera amizade. Mas quem abriu a porta foi a rainha. Ela parecia furiosa.
— No mundo das humanas-fadas do tipo formiga, todos trabalham. Não aceitamos preguiçosas como você e sua trupe aqui. Morra de frio e aprenda a lição que devia ter aprendido há muito tempo, de uma vez por todas!
— Mas...
Não deu nem tempo de a humana-fada do tipo cigarra protestar; a rainha fechou a porta na sua cara.
Estremecendo, Bilinda observou o gelo e a neve à sua volta, e sentiu ainda mais frio. O frio que, provavelmente, traria sua sentença de morte.
Foi nesse momento que a versão temporal do poderoso inimigo dos Dois Que São Um, Adrag, o Senhor do Caos e da Destruição, se materializou através de uma caverna. Ele vivia no Abismo, o seu verdadeiro lugar. Ao ser fortalecido, no Mundo dos Mortais, pela má índole de alguns anões, atacou um planeta pela primeira vez. Levantando poeira para todo lado e causando um terremoto de grande magnitude, rachou a ilha ao meio. Avançou sobre a terra árida e gelada, sobre a mata coberta de neve, sobre os gêiseres, sobre o enorme deserto de gelo, sobre as terras altas, as montanhas e os vulcões recém-despertos, até chegar aos fiordes ocidentais e descer pela costa de praias onde a neve ocupava o lugar da areia e das pedras, devorando boa parte do relevo envolto por aqueles lençóis brancos, espantando os animais que estavam em volta. Matando quase todos os de grande porte, à exceção de algumas raposas polares, escondidas no interior das cavernas, e das aves migratórias, que deixaram a ilha enquanto voavam acima do mar agitado de ondas gigantes, como um aglomerado de nuvens que, pela força dos ventos onde dançavam os flocos de neve, se deslocava para o norte e para o sul, para o leste e para o oeste, para o nordeste e para o noroeste, para o sudeste e para o sudoeste. Praticamente sem rumo.
A humana-fada do tipo cigarra viu uma fumaça escura, de onde saía uma série de tentáculos assustadores, se aproximar, cobrir o limite das nuvens e destruir tudo à sua frente.
— Adrag! — Bilinda afastou-se bruscamente, quase caindo no chão. Cobriu o rosto com as mãos e gritou, aterrorizada. — Zena! Zena! Ai, Deuses, Zena!...
Vendo que, por alguma razão estranha, continuava viva, desprendeu as mãos do rosto, abriu os olhos e se assustou.
Uma pequena mão surgiu em meio aos pedaços de madeira da árvore derrubada.
— Estou aqui! — disse a humana-fada do tipo formiga com a voz rouca, erguendo-se enquanto limpava o vestidinho. — Estou aqui. — Em prantos, correu até a amiga.
As duas se abraçaram enquanto choravam juntas.
— Cadê a sua mãe...?
— Mamãe... — o olhar transtornado de Zena pousou nos destroços da antiga casa —... se foi.
Com muito pesar, compreenderam, então, o que havia acontecido.
Além das irmãs humanas-fadas do tipo formiga, das protofadas e do pai, Adrag destruíra o formigueiro, a Casa Real e ainda matara a rainha-mãe, que acabara vítima de seu próprio ódio.
A filha, entretanto, assim como a humana-fada do tipo cigarra, sobreviveu graças ao amor que tinha, ao valor da amizade construída, sendo fortalecida por conter a essência dos Dois Que São Um dentro de si, repelindo assim o Inimigo.
E, após tudo aquilo passar, com a bênção dos Deuses, construiu uma nova Casa Real e um novo formigueiro. Daquela vez, também para a humana-fada do tipo cigarra, que viveria ao seu lado, com a condição de que ela explorasse seu talento musical e trabalhasse, cantando, dançando e compondo.
O lar ficaria marcado para sempre, com o nome de Escudo. O Escudo do amor: mais forte do que um diamante, mais duro do que chumbo, duradouro como uma árvore centenária e, ainda, deixando um legado eterno para as gerações vindouras.
— Fim. Gostou da história?
— Gostei! Então quer dizer que elas duas foram as últimas humanas-fadas do tipo formiga a viverem aqui?
— Sim!
— Mas, mãe... essa história é real?
— Não, minha filha, não! — A Humana-Fada-Rainha do tipo abelha achou graça. — É só uma lenda.
— Mas a senhora diz que toda lenda tem um fundo de verdade.
— E realmente tem.
— Então essas fadas existiram mesmo?
— Não. E nem poderiam! — Sacudiu a cabeça. — Primeiro que, para Adrag não conseguir destruir — no caso de alguém conseguir enfraquecer o Campo Hitaísta ou resolver utilizar alguma das Pedras Mágicas para isso —, é necessário que pelo menos mais da metade da população de um planeta absorva a energia dos Dois Que São Um, o que não aconteceu. Mas, mesmo assim, esta é uma história excelente para entendermos a grande diferença entre a natureza divina e a do Inimigo, que são exatamente opostas.
— E o que mais, mãe?
— Bom... achados arqueológicos já provaram que realmente nunca existiram fadas-formigas aqui, nem mesmo na alegada época em que, conforme a lenda, a versão temporal de Adrag teria aparecido pela primeira vez, por causa daqueles anões.
— Então qual a explicação real, então? — exclamou a princesa — se a história...?
— Bom, se a gente for olhar bem, faz sentido não existirem fadas-formigas aqui, afinal, Raylanth é uma ilha bastante isolada e fria, que foi erguida por vulcões submarinos há milhões de anos, e é considerada recente em termos geológicos. Nossa fauna e flora são únicas por isso!
— Verdade. Tenho orgulho de ser de Rayslanth, mãe!
A Humana-Fada-Rainha do tipo abelha esboçou um sorriso.
— Eu também, minha filha. E é assim que tem que ser! Se nós mesmas não tivermos orgulho de nossas origens, quem mais vai ter?
A princesinha agradeceu à mãe pela história e retornou aos seus aposentos reais, cantando. Alegre e dançante como uma humana-fada do tipo cigarra. Ciente de seu dever como uma Humana-Fada-Princesa do tipo abelha.
Pois mesmo a primeira batalha contra Adrag no Mundo dos Mortais, quando de fato ocorreu, virou lenda. Ressignificada, reinterpretada e recontada de diferentes formas no decorrer dos milênios que se seguiram, por índoles boas e ruins, pelo mais sensato e pelo menos sensato dos mortais. Atendendo aos mais diversos objetivos, como o de educar a nova geração, a geração do amanhã, do amanhã que se torna hoje e um dia se torna ontem: seja rompendo com o passado e encarando o futuro com olhares renovados, seja mesclando continuidades e rupturas, nesta jornada linear, armazenada no Tempo, que preservaria a sua memória para sempre, e destinada ao futuro: às vezes próximo... às vezes distante.






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